Telemedicina: a jornada para o futuro já começou

14 de agosto de 2019
Telemedicina: a jornada para o futuro já começou

A telemedicina é um processo avançado e organizado de troca de informações médicas, de monitoramento de pacientes e de análise de resultados de exames à distância e de maneira digital. A prática já é utilizada em muitos países – Portugal, Inglaterra, Estados Unidos, França, entre outros – e sua receptividade positiva prova que, quando consideramos a extensão do território brasileiro, a telemedicina pode proporcionar a quebra das principais barreiras que separam o usuário do sistema de saúde: a demora e a distância.

Quando pensamos em consultas à distância, talvez seja impossível não fazermos uma associação inicial a filmes de ficção científica. De fato, o debate sobre a teleorientação ou telessaúde (como também pode ser chamada) já causou muita polêmica no país sobre o papel do médico e a prática da medicina. Mas ainda que soe como coisa de outro mundo, a telemedicina já é uma prática adotada em outras roupagens há muito tempo.

Telemedicina: uma questão de organização

O Conselho Federal de Medicina (CFM) criou uma nova regulamentação em 6 de fevereiro, para o atendimento médico à distância. Após outras entidades alegarem que a decisão prejudicaria a relação do paciente com o médico, o documento foi revogado no final do mesmo mês, regressando a telemedicina à norma vigente que norteia a prática do mesmo Conselho, criada em 2002. A diretora de estratégias e novos negócios da Qualirede, Martha Oliveira, nos lembra, entretanto, de um fato que coloca em xeque a resistência à telemedicina no Brasil: ela já está, de certa forma, em prática, facilitando o dia a dia do sistema de saúde,  sem que nem ao menos nos demos conta. 

“Quando eu ligo para meu médico ou quando eu envio uma mensagem por Whatsapp para ele pedindo instruções, já estou praticando a telemedicina”, pondera Martha. Isso, contudo, não é necessariamente organizado. Não há garantias de que os dados dos pacientes serão salvos ou que a comunicação se dará de forma correta. Além disso, a telemedicina não pode se resumir exclusivamente à troca de mensagens entre médico e paciente, mas sim evoluir e atingir tudo o que a tecnologia nos proporciona. Assim, chegamos ao ponto de consultas a distância e acompanhamento médico via videoconferência. Dessa forma, “o que se propõe agora é que a telemedicina seja feita de uma forma organizada”, comenta Martha. “Temos que ter o registro da informação, gravação da consulta e rastreabilidade, para que possa ser resgatado e mensurado”, completa.  

Tecnologia em tratamento como complemento médico

Há certa dúvida por parte de muitos pacientes sobre como pode se dar a prática da telemedicina. Se alguém precisar que o médico, que estaria remoto, faça o diagnóstico de manchas na pele, por exemplo, ele conseguiria analisar perfeitamente por vídeo? Esse é um tipo de dúvida comum, e é importante lembrar que a telemedicina não se propõe a substituir a prática da medicina tradicional – justamente por casos como esses. “Quem está do outro lado é um médico, precisamos lembrar disso”, esclarece Martha, “e sempre que ele achar necessário uma consulta presencial para melhor diagnóstico, ele pode e deve fazer isso”.

As consultas presenciais, bem como vários tipos de exames são primordiais e insubstituíveis. A telemedicina se dispõe a completar esses cuidados oferecendo um atendimento rápido e fácil, sem necessariamente de se precisar estar presente, pois ele chega a você de forma facilitada. A diretora de estratégias da Qualirede ainda destaca que, “além de facilitar o acesso, a telemedicina diminui as idas desnecessárias ao sistema de saúde, permite um acesso diferenciado a especialistas e faz com que o contato com o sistema de saúde seja mais permanente do que consultas episódicas presenciais”. 

O momento do Brasil

Além de laudos emitidos digitalmente, o que já é uma prática do Brasil desde os anos 1990, as principais universidades públicas e privadas já possuem aparelhagem dedicada à prática de telemedicina. “Há diversos casos de sucesso no setor público”, lembra Martha. É o caso de alguns hospitais no Piauí, por exemplo, que atendem pelo SUS e mantêm contato direto com o Albert Einstein, em São Paulo – a mais de 2.500 quilômetros de distância, são médicos da capital paulista que fazem a ronda diária nos pacientes piauienses.

“No setor privado, já existem registros de interconsulta”, destaca Martha, se referindo ao nome da prática neste meio. “Normalmente, de um lado, temos um médico generalista e, do outro, um especialista, que comenta os detalhes mais específicos, e os resultados são medidos e analisados”, complementa. 

Apesar desse avanço em terras brasileiras, a prática não é totalmente organizada no que tange à regulamentação da telemedicina. Martha, entretanto, é otimista sobre o assunto. “A regulamentação não deve demorar, talvez aconteça entre este ou no próximo ano, porque não há mais como frear a tecnologia”, comenta. Para ela, muito em breve vamos entrar num momento de aprendizagem. “Depois da sensação de por que não regularizamos antes?, vamos passar por uma etapa de entender como a telemedicina funciona, tanto para médicos quanto para pacientes, e como podemos tirar o melhor proveito da tecnologia”, conclui.

Os números não mentem

Uma vez em estado de aprendizagem, devemos olhar à nossa volta e nos espelhar em exemplos de sucesso. Os Estados Unidos, segundo o hospital Albert Einstein, já registram a marca de 60% de instituições de saúde que praticam algum tipo de telemedicina, consolidando mais de 42 mil consultas online até 2018. A expectativa é que até 2020, 99% dessas clínicas e hospitais se adequem a esse tipo de tecnologia, já que 50 milhões de norte-americanos se sentem propensos a trocar de médico para ter acesso a consultas online. O que mais chama atenção é o alto índice de aceitação, que gira em torno de 96% a 99%, sem nenhuma ação judicial contra procedimentos médicos à distância.

Para alcançar esses resultados, porém, devemos tomar cuidado, não apenas com a receptividade do público, mas nos atentar aos profissionais de saúde. “Não é simplesmente pegar uma tela e falar por ela. Há toda uma capacitação por trás para que o médico consiga exercer a telemedicina”, lembra a diretora de estratégias da Qualirede.

Ainda com os desafios da regulamentação e da capacitação médica, Martha enxerga um caminho próspero para o futuro da telemedicina no Brasil. “Esse momento de aprendizado e capacitação vai ser rápido. Tenho certeza que os resultados serão satisfatórios para a saúde como um todo, tanto em termos de resultado quanto em termos de otimização do sistema de saúde”, finaliza.

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