Por que o modelo de Atenção Primária à Saúde pode mudar o cenário da saúde suplementar no Brasil?

6 de março de 2020
Por que o modelo de Atenção Primária à Saúde pode mudar o cenário da saúde suplementar no Brasil?

O setor de saúde suplementar totalizou 47 milhões de beneficiários de planos de saúde em todo o Brasil em dezembro do ano passado, mantendo estabilidade em relação ao mesmo período de 2018. Os dados são da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

Na comparação anual, 11 estados tiveram aumento de beneficiários no sistema de saúde suplementar, sendo Minas Gerais, Goiás e Rio de Janeiro os líderes em números absolutos. Segundo a ANS, os números podem sofrer modificações retroativas em função das revisões efetuadas mensalmente pelas operadoras. 

Elevação do valor dos planos acima da inflação

Segundo uma comparação feita pelo núcleo de pesquisas do Procon-SP, vinculado à Secretaria da Justiça e Cidadania, na última década, o valor dos planos subiu 88,33%. A elevação é 11 pontos percentuais acima da alta de 77,32% dos preços que compõem o índice de Custo de Vida (ICV) do Dieese, considerando alimentação, habitação, equipamentos domésticos, transporte, vestuário, educação e leitura, saúde, recreação e despesas pessoais. Ainda segundo o Procon, se comparada à inflação IPC-SP da Fipe, que foi de 69,34% no período, a variação foi de 20 pontos percentuais.

De acordo com os valores de planos de saúde informados na plataforma da ANS, o Procon também percebeu uma variação enorme dos reajustes por idade do usuário. Numa das simulações, o órgão apurou que um plano familiar/individual teria mensalidade de R$ 1.598,42 para a primeira faixa etária de até 18 anos, e de R$ 9.589 para a última faixa etária, para pessoas com 59 anos ou mais.

Em nota, o Procon-SP informou que, independentemente da data de assinatura e do tipo de contrato, o consumidor que completar 60 anos não poderá ter seu plano reajustado pelo critério de mudança por faixa etária.

O modelo de saúde suplementar atual x valor dos planos

Impactado pelo clima de incerteza, recessão econômica e nível de desemprego, que hoje atinge mais de 12 milhões de brasileiros, o mercado de saúde privada mostra-se insustentável e custoso. Além de reajustar os preços dos planos acima da inflação, o sistema de saúde suplementar atual entrega um benefício inferior ao seu custo. E tudo isso acaba refletindo na conquista de novos clientes e na crescente judicialização dos planos de saúde. Segundo dados do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), a perda de clientes dos convênios alcançou os 133 mil pessoas nos últimos 12 meses finalizados em julho. 

Nesse contexto, é necessário analisarmos o funcionamento do sistema de saúde vigente para compreender as causas dessa escalada de preços e encontrar alternativas que possibilitem oferecer a melhor assistência aos beneficiários dos planos e, ao mesmo tempo, evitar custos

No atual modelo, o paciente fica solto na rede, buscando médicos especialistas e tratando as doenças isoladamente, sem considerar seu contexto de vida, ambiente social e hábitos, ou avaliar sua saúde de forma integral. Assim, ele acaba utilizando a rede de saúde excessivamente, elevando os custos da operadora de saúde. A Qualidade de vida do beneficiário é comprometida, resultando, muitas vezes, em tratamentos pouco eficazes e no uso de serviços de forma desnecessária.

Outro fator de elevação de custos na atual configuração do sistema de saúde suplementar é a remuneração baseada no pagamento por serviços (fee for service). Em linhas gerais, esse modelo adota um valor como remuneração para cada procedimento realizado. Isso acaba resultando na indicação de exames, consultas e outros encaminhamentos com a finalidade da rentabilidade, culminando em movimentos que não são realmente necessários para o paciente e custos evitáveis para a empresa de saúde. Nas palavras de Gizelli Aires Ribeiro Nader, Diretora de Operações em Saúde da Qualirede, tal ação é da “ordem da produção do desperdício”.

Como a Atenção Primária à Saúde pode mudar esse cenário

A implementação de Clínicas de Atenção Primária à Saúde (APS) contribui para controlar a jornada dos beneficiários do sistema de saúde suplementar e evitar a realização de procedimentos desnecessários e de alto custo. Cerca de 80% dos atendimentos podem ser solucionados, tratados e acompanhados dentro dessa realidade, com apenas 20% dos pacientes sendo encaminhados para especialistas

Nas Clínicas de APS, é possível atender o paciente desde sua gestação, antes do nascimento, até o fim da vida. Por meio de uma rede credenciada, que inclui médico de família, concierge de saúde e uma equipe multidisciplinar, possibilita a coordenação do cuidado, com estabelecimento de maior vínculo entre o beneficiário e especialistas, o que ajuda a criar uma relação de confiança e auxiliar suas dúvidas e pendências burocráticas. 

As Clínicas de APS têm foco no acompanhamento permanente do paciente, privilegiando a promoção do seu autocuidado e a melhoria da qualidade de vida. Isso por que o médico de família cuida da saúde como um todo, sem fragmentar ou minimizar o cuidado em doenças específicas, baseando-se em evidências clínicas de eficácia e garantia de resultados

Todos esses atributos podem contribuir para a melhoria da percepção e da satisfação dos beneficiários de planos de saúde e para sustentabilidade do sistema de saúde suplementar brasileiro

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