Em dezembro, tive a feliz oportunidade de participar de um seminário promovido pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Por mais de 8 horas, trocamos ricas experiências com especialistas de diferentes áreas da saúde e debatemos com uma plateia de 140 profissionais. Juntos, nos dedicamos a pensar e a propor uma nova visão para a Atenção Primária à Saúde (APS), no subsistema privado de saúde, chamado de Saúde Suplementar.

Foram debatidos vários pontos: a APS como organizadora do Sistema de Saúde; o envelhecimento da população e os programas de promoção e prevenção em saúde (em especial, o de gerenciamento de doenças crônicas).

Foram elencadas 10 decisões para começarmos a colocar em prática em 2017. Entre elas estão: aprofundar o debate da APS na Saúde Suplementar, compartilhar mais conhecimento sobre o tema entre todos os envolvidos com a saúde privada por meio de publicações, entre outros.

A Atenção Primária à Saúde é o primeiro nível de acesso ao sistema de saúde e se ocupa em cuidar, eficientemente, das pessoas (evitando o adoecimento) e, daquelas que já estão acometidas por doenças/agravos, identificar e tratar o mais precoce possível, sustentada por fortes evidências científicas. Os profissionais da APS devem ser “especialistas” nos problemas comuns de uma carteira ou comunidade, ser efetivos nos tratamentos, além de oferecer serviços de prevenção e de promoção em saúde. Os objetivos da APS são, entre outros: garantir elevada resolutividade dos problemas/agravos, neste nível de atenção; aumentar os níveis de saúde e de bem-estar das pessoas; otimizar o uso dos recursos; garantir a integralidade e a equidade no cuidado e elevar o grau de satisfação das pessoas com seu plano de saúde. Trabalha com as necessidades sentidas – quando os usuários buscam atendimento – e aquelas não sentidas, quando os serviços de saúde preconizam, por meio de protocolos, o melhor cuidado em saúde para determinada faixa etária ou sexo. A APS se ocupa, também, de identificar os determinantes do processo saúde-doença e, para tanto, estuda e trabalha nos ambientes da família, de trabalho e social da população, pela qual o médico e os demais integrantes da equipe são responsáveis por garantir o melhor cuidado.

Atualmente, vivemos em um país onde o sistema de saúde e os cidadãos estão aprendendo a se beneficiar da APS, quer seja porque os planos de saúde ainda estão muito acanhados em colocar serviços de APS ao alcance dos usuários ou porque os usuários estão aculturados no modelo curativo, onde o hospital e as especialidades médicas ganham destaque. Quero deixar claro que reconheço o valor desses serviços, porém os mesmos devem ser acessados com indicação precisa e, para esse fim, o referenciamento pelos profissionais da APS é mais efetivo do que a busca livre. As evidências demonstram que serviços nucleados pela ASP são mais efetivos e promovem melhor nível de saúde da população.

Nos mais de 20 anos que me dedico à área da saúde, como enfermeira de APS  ou como gestora, vivenciei o cotidiano da APS tanto no subsistema público quanto no privado. Por meio de métodos consistentes de monitoramento e de avaliação, pude – felizmente – constatar o quanto as equipes de APS trazem de resultados positivos para a saúde das pessoas e das organizações, na medida em que contribui sobremaneira na conquista de indicadores sustentáveis para o setor saúde.

Nessa trajetória, sempre busquei de forma incessante, ampliar meus conhecimentos e privilegiei a troca dos mesmos, o que culminou com várias apresentações em congressos, seminários, workshops, artigos e, finalmente, na elaboração de um livro que será lançado neste mês de janeiro, pela editora Atheneu. Sob o título “Atuação do Enfermeiro na Atenção Primária à Saúde”, Sandra Regina Soares Ferreira, Lisiane Andréia Devinar Périco e eu, Vilma Regina Freitas Gonçalves Dias escrevemos, juntamente com vários colaboradores, como os enfermeiros podem ajudar na disseminação e prática da APS. Buscamos colocar em uma única obra a importância e a capacidade de intervenção do enfermeiro na APS, atuação ratificada pelo recente artigo de Thomas Bodenheimer, M.D., e Laurie Bauer, R.N., M.S.P.H., publicado no The New England Journal of Medicine (dezembro de 2016, p.48).

Qualirede