A experiência de montar um modelo de Atenção Primária à Saúde com porta de entrada obrigatória

31 de janeiro de 2020
A experiência de montar um modelo de Atenção Primária à Saúde com porta de entrada obrigatória

Por Alexandre Martins, Gerente de Atenção Primária à Saúde

Uma rede de atendimento em saúde ampla, fragmentada, associada à livre escolha dos indivíduos, vem sendo o modelo predominante no setor da saúde suplementar. No entanto, estudos apontam para a ineficiência desse modelo que, por ser desarticulado, torna-se cada vez mais insustentável, com custos elevados e baixos resultados em saúde. Assim, substituir o padrão atual pela Atenção Primária à Saúde (APS), sistema que elimina a livre oferta de consultas e demais procedimentos médicos, torna-se uma decisão estratégica das operadoras de plano de saúde.

Por meio de um estudo realizado pela Qualirede, com o objetivo de contribuir na reconstrução do modelo assistencial do setor privado brasileiro, foi possível reconhecer nos resultados, a implantação da Atenção Primária à Saúde como porta de entrada obrigatória, em substituição ao plano de saúde de porta de entrada aberta e rede ampla. 

A metodologia utilizada no estudo  trata o relato de experiência, realizado com base no contexto e dados de julho de 2019, após três meses de implantação do modelo de Atenção Primária à Saúde para uma operadora de plano de saúde atuante na cidade de Joinville (SC).

Atenção Primária à Saúde na prática: resultados

A substituição do modelo foi realizada em abril de 2019, atingindo  22 mil beneficiários, que, anteriormente, utilizavam um plano de saúde desarticulado, de livre acesso e como principal porta de entrada os serviços de nível secundário. 

Durante esse período (entre maio e junho do ano passado), foram acompanhados indicadores que pudessem retratar a evolução da implantação tais como: 

  • Procura dos beneficiários pelo serviço; 
  • Contatos telefônicos; 
  • Cobertura de atendimentos realizados pelo médico de família;
  • Taxa de encaminhamento da equipe APS para outras especialidades médicas;
  • Média de exames por consulta e satisfação do beneficiário. 

Para cálculo dos indicadores, usamos como fonte de dados a agenda eletrônica, plataforma de telefonia e prontuário eletrônico., Já para a pesquisa de  satisfação, o Net Promoter Score (NPS), aplicado semanalmente via WhatsApp e e-mail a100% dos beneficiários atendidos no período.

Dentre os resultados, destacaram-se os seguintes indicadores sobre a implementação do sistema de Atenção Primária à Saúde

  • Atendimentos realizados pelo médico de família: 5.680
  • Taxa de encaminhamentos da equipe APS para outros especialidades médicas: 13%
  • Média de exames por consulta 2,4, e 
  • NPS 78 – nível de excelência. 

O que se aprende com a APS como porta de entrada obrigatória?

Analisados os resultados do estudo, conclui-se que a transição de um modelo de saúde com livre escolha e desarticulado traz consigo uma série de desafios. Dentre eles, a resistência dos beneficiários, bem como o descrédito ao modelo e pouco interesse na articulação da rede secundária e terciária. 

Identificamos, entretanto, que é possível aplicar tal substituição. Com a implantação do modelo de Atenção Primária à Saúde a operação passou a trabalhar com uma maior estabilidade, além de ter sido criado um vínculo à equipe. Esse vínculo permitiu a sensação de segurança dos beneficiários, que passaram a ter a equipe como referência. Assim, a coordenação do cuidado funciona como mecanismo regulatório para o plano de saúde, evitando que o paciente perca a linha do cuidado e se submeta a procedimentos desnecessários. 

Essas premissas também consideram a multidimensionalidade do ser humano e do contexto onde este está inserido, atuando com base nos atributos da Atenção Primária à Saúde e rompendo com o modelo disjuntivo e simplificado que vigora.

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